'Elite
brasileira é de ladrão' afirma sociólogo que lança livro na França
O livro "A Elite do Atraso", de Jessé Souza, acaba de ser publicado na França. [Imagem: Divulgação].
O livro "A Elite do Atraso", do sociólogo brasileiro Jessé Souza, acaba de ser publicado na França - mais precisamente na primeira quinzena de março - pela editora l'Harmattan, com tradução de Jean-Luc Pelletier.
Em francês, a obra ganhou o título de "Le Brésil et ses élites; l'esclavage en héritage" (O Brasil e suas elites, a escravidão como herança). O sociólogo reinterpreta o Brasil de um outro modo e afirma que no país "corrupta, é a elite".
Depois de passar uma temporada na França dando
aulas na Sciences Po, o Instituto de Estudos Políticos de Paris, Jessé de Souza
está agora em Berlim, e conversou com a RFI por telefone.
O sociólogo é autor de mais de 15 livros, alguns
deles publicados em inglês e alemão, que renovam a análise da questão social no
Brasil e explicam o país sob um outro prisma. A "Elite do Atraso" é o
seu primeiro livro lançado em francês.
Na obra, o autor critica clássicos da sociologia
brasileira, como "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda, e
"Carnavais, Malandros e Heróis", de Roberto da Matta. "Gilberto
Freyre, Sérgio Buarque, Raymundo Faoro, Fernando Henrique Cardoso, Roberto
DaMatta, ou seja, são as cabeças mais brilhantes do Brasil dos últimos 100
anos", detalha. Esses autores ainda são muito usados e citados na
França e Jessé Souza espera que o lançamento de "Le Brésil et ses
élites" ajude os franceses a entender melhor o Brasil.
"O Brasil é percebido tanto pelos
intelectuais como pelo povo inteiro de um modo elitista. Ou seja, foi criada no
Brasil uma identidade nacional que é sempre produto desses grandes intelectuais
que montaram uma ideia do Brasil que humilha o povo, chama esse povo de
corrupto e eleitor de corruptos", explica.
O sociólogo indica que essa teoria foi "antes de tudo, feita em São Paulo, sob os auspícios da elite paulista, para se livrar de Getúlio Vargas, o primeiro presidente a tentar a inclusão popular". A versão da história que Jessé de Souza quis contar, "a história real", segundo ele, é que "a elite é o problema. Quem rouba é a elite, por exemplo, por uma dívida pública que nunca foi auditada. O Brasil, no fundo, não tem nada a ver com Portugal. O Brasil tem a ver com a escravidão", afirma.
Política criminalizada
A análise de Jessé Souza é alvo de críticas que
dizem que ele minimiza a corrupção de políticos no Brasil. Ele responde que
"o político, obviamente, ele é corrompido", mas salienta que isso não
pode ser usado como bode expiatório do processo histórico de
dominação e de reprodução da desigualdade em um país rico.
"O importante é que a corrupção, no Brasil e
em outros lugares, é realizada no mercado pelos proprietários", que se
beneficiam, por exemplo, de isenção fiscal. O sociólogo também faz uma
comparação com a violação dos direitos dos povos indígenas brasileiros. "Essa
coisa que está acontecendo no Brasil hoje, matando índio para tirar madeira,
isso tudo é a elite brasileira funcionando, roubando. O nome disso é corrupção.
Isso é ilegal, é contra a Constituição".
Ele cita ainda o rombo das Americanas como mais uma
prova de que "corrupta, é a elite": "esse cara, Jorge Paulo
Lemann, deu um cano de R$ 40 bilhões, entendeu? E esse cara era tido como um
grande empresário do Brasil. A elite brasileira, é uma elite de ladrão."
Jessé Souza espera que isso fique "claro para
o povo brasileiro (que) aprendeu a se perceber, ele e seus representantes, como
corruptos. Daí a ideia de criminalizar a política como único lugar da
corrupção". Ele acredita que "criticar as ideias é o primeiro passo,
e o passo mais importante, para você mudar uma sociedade. É isso que é preciso
compreender".
Restituir
a inteligência popular
O livro "A Elite do Atraso" foi publicado
inicialmente no Brasil em 2017 com o subtítulo "Da escravidão à Lava
Jato". Em 2019, ganhou uma nova edição com o subtítulo "Da Escravidão
a Bolsonaro". Depois da reeleição de Lula em 2022, a obra continua mais
pertinente do que nunca na opinião do sociólogo.
"O Lula continua falando exatamente contra os
juros altos do Banco Central e você vê toda a imprensa o atacando por isso, por
exemplo. Ou seja, essa elite não morreu. É uma luta desigual, né? Então, o Lula está dentro de um contexto
extremamente hostil, adverso a ele."
Para evitar novos "golpes", como o que
derrubou a presidente Dilma Rousseff e abriu caminho para a eleição de Jair Bolsonaro, Jessé Souza espera que o
novo governo compre "a batalha cultural" e a disputa narrativa com
implantação de uma imprensa plural que explique "para essas pessoas por
que elas são pobres, por que elas não têm futuro num país que é rico".
O principal desafio do atual governo, de acordo com
Jessé Souza, é restituir a inteligência popular: "No fundo, o povo
brasileiro, que é um povo inteligente como qualquer outro povo, foi imbecilizado
pela elite e por sua imprensa. E você tem que restituir a inteligência
popular".
Em 2017 o livro de Jessé já era campeão de vendas no Brasil
“A Elite do Atraso”, de Jessé de Souza, entra na lista
de livros mais vendidos da Publishnews
Publicado por: Pedro Zambarda de Araujo do site Essencial
Na última semana de 2017, o livro “A
Elite do Atraso: da escravidão à Lava Jato” entrou no nono lugar da
categoria Não Ficção do ranking da Publishnews,
uma das listas de obras mais vendidas mais respeitadas no Brasil.
O desempenho de vendas do livro mostra
a demanda da sociedade por obras mais críticas à Lava Jato.
A
Publishnews informa em seu site que o ranking é elaborado a partir da soma das
vendas nas livrarias Argumento, Cultura, Curitiba, FNAC, Laselva, Leitura,
Livraria da Vila, Martins Fontes SP, Nobel, Saraiva, SuperNews e Travessa.

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